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FM no livro da capa verde - por LeNog


F. vê a moça passar com o livro na mão e vai reparando seus detalhes enquanto ela olha para dentro do restaurante onde está ele, que não tem certeza de ter sido visto e ao mesmo tempo acha que pode ter sido fitado, então ela vinha, olhou para dentro do restaurante parando de andar, começa a andar no sentido contrário sem parar de mirar o interior do estabelecimento e some, sai do campo de visão possível dali, daquele ponto, em frente ao caixa. Ele então sai, parando ainda na área coberta e a vê, com o livro na mão, já olhando para outro lado, anda até entrar em outro restaurante carregando seu livro. 
(…)
Ele a aborda, sem graça, sem certeza do que perguntar, sem planos. Você acharia estranho se te perguntasse que livro é esse que você está lendo? pergunta ele. Não, ou melhor, sim, acharia estranho, mas posso te mostrar, diz ela mostrando a ele a capa daquele volume capa dura, verde, com folhas ligeiramente amareladas, sujas onde eram seguradas por polegares. Ele arregala os olhos, ergue as sobrancelhas e voltando a olá-la nos olhos: Posso ver? pedindo com as mãos, tendo o pedido concedido por um menear de cabeça tão lento que seus cabelos não balançaram. Ele abre e olha a parte interna da capa. Então folheia, passando as páginas de uma só vez, mal vendo quantas ilustrações tinha, fecha o livro, e sorrindo agradece.
(…)
Havia um livro verde, com um texto manuscrito, uma mensagem, escrita na parte interna da capa dura, deixado ali por uma moça que tinha um coração mole, para um moço que tinha um coração de pedra. Nessa mensagem, havia um código na data registrada. Era a senha de uma conta de banco ou talvez de uma caixa forte. Essa informação ele tinha encontrado na parte interna de outro livro, outro dos dezenove livros que ela tinha deixado no apartamento quando foi embora para nunca mais voltar. Já fazia mais de uma semana que ela nunca mais voltava.
(…)
Quando foi embora ela pegou por último uma almofada, no formato de coração, marrom e felpuda. Olhou por demorados segundos para o sofá que continuava cheio de almofadas, como se pensasse em levar mais uma. Então virou-se para a estante, mais especificamente para um peso de papel, também no formato de coração, mas de cristal, verde e polido. Ergueu-o, tirou dali um cartão postal, que tinha sobre ele alguns saldos de banco e debaixo dele umas correspondências e uns envelopes. Olha para o cartão, olha para ele uma última vez e sai, deixando chaves em um gancho de trás da porta antes de abri-la e passar por ela olhando pro chão. No silêncio que deixou no apartamento podia se ouvir seus passos no corredor lá fora. 
(…)
F. olha para os livros dela na estante, uns que ela disse que não carregaria para seu futuro mas que podiam ser úteis para o futuro dele. Enquanto passava os dedos nas lombadas deles disse que ele podia fazer o que quisesse ou tivesse que fazer com eles. Assim que ela saiu ele já queria rasgar, queimar, jogar pela janela, jogar no lixo, deixar na porta do prédio até que viesse uma chuva que chorasse sobre eles tudo que ela não chorou quando disse que partiria. Em vez das opções lógicas, abriu um deles, um amarelo, fino, vendo na parte interna um recado para ele. Essa é a nona pista: cada livro tem sua história por trás da estória, que se não fosse uma anedota seria uma tragédia do mesmo jeito, com a diferença de que se todos os livros fossem visitados, tragédias poderiam ser repensadas como comédias e quem os abrisse, se fosse esperto, acabaria se tornando um rico, de um jeito ou de outro. Com direito a uma conta gorda em um banco internacional.
(…) 
M. era de uma família podre, de rica, então saiu de casa com o que tinha no corpo, sumiu da mesa onde se sentia primeiro transparente e de repente invisível. Foi ser pobre sem medo de morrer de fome, até porque voltaria quando quisesse à casa de garagem para seis carros. No dia que jogou na loteria, apostou nos números que F. lhe sugeria, com data de aniversário, idade, número de telefone. Apostou em F. pensando no próprio, mas querendo aquele futuro para os dois. Quando descobriu que ganhou, visualizou uma mesa com pessoas invisíveis e resolveu sumir da cidade, sem levar nem seus livros, que juntou nos tempos em que viveu com F. naquela rua sem saída, naquele apartamento com sacada de frente pra outra sacada. Deixou então uma série de recados, escritos nas partes internas das capas dos livros, com um código que se lido na ordem certa, dava acesso ao prêmio da loteria. 

100 contos de Borges e Cortázar para ler online

Por Gisele Teixeira 

Esta dica vem de uma página ótima chamada LECTURAS INDISPENSABLES.
Eles têm muitíssima literatura de boa qualidade disponível, além de muitas resenhas interessantes. Dá para ler 10 contos de Gabriel Garcia Marquez, 10 poemas de Bukowski,  12 contos de Edgar Allan Poe.

E por aí vai.
Reproduzo abaixo os links para Borges e Cortázar.

borges e cortazar

100 Contos de Borges e Cortázar

Cuentos de Julio Cortázar

Bestiario (1951)

1. Casa tomada
2. Carta a una señorita en París
3. Lejana
4. Ómnibus
5. Cefalea
6. Circe
7. Las puertas del cielo
8. Bestiario

Final del juego (1956)

9. Continuidad de los parques
10. No se culpe a nadie
11. El río
12. Los venenos
13. La puerta condenada
14. Las ménades
15. El ídolo de las Cícladas
16. Una  flor amarilla
17. Sobremesa
18. La banda
19. Los amigos
20. El móvil
21. Torito
22. Relato con un fondo de agua
23. Después del almuerzo
24. Axolotl
25. La noche boca arriba
26. Final del juego

Las armas secretas (1959)

27. Cartas de mamá
28. Los buenos servicios
29. Las babas del diablo
30. El perseguidor
31. Las armas secretas

Todos los fuegos el fuego (1966)

32. La autopista del sur
33. La salud de los enfermos
34. Reunión
35. La señorita Cora
36. La isla al mediodía
37. Instrucciones para John Howell
38. Todos los fuegos el fuego
39. El otro cielo
Queremos tanto a Glenda (1980)
Cuentos de Jorge Luis Borges
Ficciones (1944)
El Aleph (1949)60. El inmortal
61. El muerto
62. Los teólogos
63. Historia del guerrero y la cautiva
64. Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)
65. Emma Zunz
66. La casa de Asterión
67. La otra muerte
68. Deutsches Requiem
69. La busca de Averroes
70. El Zahir
71. La escritura del Dios
72. Abenjacán el Bojarí, muerto en su laberinto
73. Los dos reyes y los dos laberintos
74. La Espera
75. El hombre en el umbral
76. El AlephEl informe de Brodie (1970)77. La intrusa
78. El indigno
79. Historia de Rosendo Juárez
80. El encuentro
81. Juan Muraña
82. La señora mayor
83. El duelo
84. El otro duelo
85. Guayaquil
86. El evangelio según Marcos
87. El informe de BrodieEl libro de arena (1975) 88. El otro
89. Ulrica
90. El Congreso
91. There are more things
92. La secta de los treinta
93. La noche de los dones
94. El espejo y la máscara
95. Undr
96. Utopía de un hombre que está cansado
97. El soborno
98. Avelino Arredondo
99. El disco
100. El libro de arena